Ontem encontrei um desgraçado de um poeta viciado que gosto muito. A desgraça dele me dá grande conforto porque é muito maior do que a minha. Encontrar um desgraçado de grande porte ainda é um triunfo particular, um prêmio de consolação. Qualquer desgraçado médio comemoraria. E ele me lembra que nós disputamos uma guria linda há muitos anos, mas eu já não sabia o nome dela. Era uma morena de olhos verdes e cabelos curtinhos. Dormia como um anjo e trepava como o diabo. Ele apertou a minha mão e disse “Talita”. Nos perdoamos naquele momento. De verdade. Foi tão importante, tão forte, tão verdadeiro. Dois desgraçados que venceram as mágoas e encontraram o perdão. Mas fecharam o bar e já não havia mais tempo para solenidades. Eu implorei por uma última cerveja. Não nos deram. Mas perdoados, nos arrastamos para outro bar. Porque perdoar e fechar bares faz parte da desgraça. Sentamos numa mesa dois quarteirões adiante. Umas mocinhas chegaram perto e pediram um cigarro. Perguntei se uma delas não poderia beijar na boca do desgraçado que estava comigo. Por humanidade. Por amor ao próximo. Ela ficou tão comovida que molhou os lábios com a língua, mas ele levantou da cadeira tropeçando e estragou tudo. Ela virou o rosto irritada. E irritar mulheres faz parte da desgraça. O jogo estava quase ganho, mas agora elas estavam rindo de nós. Eu disse que pagaria um táxi. E que ele conseguiria dormir logo. E que eu sabia que ele só bebia para conseguir dormir. E que era um ótimo plano B. E que o dinheiro não me faria falta. E que era a única coisa decente que poderíamos fazer naquele momento. Mas o desgraçado recusou a proposta na hora. Queria mais desgraça, mais noite, mais bar. Dava para sentir a sede no seu rosto. Fui para casa com a cabeça pra fora da janela do carro. Lutei contra a fechadura da porta. Venci. Dormi, dormi, dormi e acordei perdoado.
Novembro 13, 2009...5:55 pm
Talita
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33 Comentários
Novembro 13, 2009 às 6:08 pm
Lindo…romântico…sincero…gentil…e altamente etilizado…
E por isso que eu insisto: poesia de bêbado tem dono sim!
Novembro 13, 2009 às 6:20 pm
Vocês também parecem personagens de um conto do Luiz Vilela no livro “Tremor de Terra”
Novembro 13, 2009 às 6:28 pm
Super incisivo.
Novembro 13, 2009 às 6:59 pm
Acho que eu sei quem é essa Talita…
belezinha de prosa-poetica-etilica
Novembro 13, 2009 às 7:02 pm
Muito bom. Simplesmente isso.
Novembro 13, 2009 às 7:05 pm
simplesmente “do caralho”!
agradeço por ter vivido a melhor parte desse conto…o perdão
Novembro 13, 2009 às 7:19 pm
Os anjos devem estar comemorando essa reconciliação de vcs bebendo cerveja em algum bar no céu! Louvado seja Deus, a bebida e os bares.
Novembro 13, 2009 às 8:32 pm
Sensacional! É tão sincero que transporta todo mundo pra dentro do boteco.
Um afogar um desabafo e reconciliar-se com um amigo mais desgraçado é um pleonasmo vicioso, literalmente.
Abraço.
Novembro 13, 2009 às 8:47 pm
Dahmer, todos nós temos nossas “Talitas”. Que saudades da minha tatá…
Novembro 13, 2009 às 9:10 pm
Onde se pode ler algo do ‘poeta desgraçado’? Algo da obra dele está on line?
Novembro 13, 2009 às 10:12 pm
Parece coisa do Dalton Trevisan.. (ah, isso foi um elogio!)
Novembro 14, 2009 às 12:45 am
Nem li.
Novembro 14, 2009 às 3:51 am
Li. Três vezes.
Novembro 14, 2009 às 3:56 am
Muito bonito, Dahmer.
Seria o mesmo sujeito:
http://malvados.wordpress.com/2009/02/10/botecotaco-10-de-fevereiro-de-1996/
Novembro 14, 2009 às 7:45 am
eu não perdoaria… (usando o tempo errado talvez pareça menos dolorido).
Novembro 14, 2009 às 12:42 pm
na proxima encarnação quero nascer homem pra experimentar uma amizade assim.
teus textos são muito melhores do que as tiras e quadros…
e olha q adoro as tiras a muito, muito tempo
Novembro 14, 2009 às 5:30 pm
Dahmer poeta da porra!
cara, desgraça e melancolia movem as pessoas, ao menos pro bar
Novembro 14, 2009 às 6:41 pm
great
Novembro 14, 2009 às 8:59 pm
e não comeu ninguém….
Novembro 15, 2009 às 2:41 pm
muito bom, dahmer!
depois bora marcar uma sinuca.
abraço,
stêvz
Novembro 15, 2009 às 3:54 pm
Eu acho que todos precisam ter uma “Talita” no seu passado. São experiências que nos ensinam muito. Eu já aprendi com a minha “Talita”, mas como todo bom desgraçado, ocasionalmente me esqueço da lição e repito erros como uma criança.
A dor ainda é a melhor professora, ao lado da frustração e do arrependimento. Acho que nada vai mudar isso.
Belo texto!
Novembro 15, 2009 às 10:43 pm
adorei a linguagem, não é um texto que cansa, é enérgico, quase um energético e me deu vontade de ouvir Chico …
Novembro 16, 2009 às 12:12 am
É Dahmer, vc realmente sabe escrever umas coisas realmente batutas…
Neste texto tem umas meia dúzias de frases que gostaria de ter escrito…
Novembro 16, 2009 às 12:15 am
Dois “realmantes” na mesma frase realmente é vergonhoso…
Novembro 16, 2009 às 2:42 am
belíssimo texto!
Novembro 16, 2009 às 5:50 am
Faz parte da desgraça sentir inveja? Pois se fizer, sou cúmplice e parceiro de vocês nessa desgraça toda! Vai escrever bem assim lah na puta que pariu! Já não basta desenhar, ainda tem que escrever? Deixe a escrita para pessoas sem talento ou habilidade manual. DEixe a escrita para mim!
Mas, como somos desgraçados de uma mesma desgraça múltipla e universal, eu te perdoo, e já me sinto perdoado. Afinal, perdoar faz parte da desgraça. Só falta o alcool. E falando nisso, cadê minha cerveja?
Parabéns!
Novembro 16, 2009 às 10:31 pm
muito bom, seus textos são inspiradores
Novembro 17, 2009 às 2:14 am
O que dizer?? Genial… simples assim!
Novembro 17, 2009 às 7:41 pm
Quem esses donos de bar pensam que são para ter vida particular? Outro dia me varreram de um boteco. Literalmente.
Novembro 18, 2009 às 4:15 am
Pessoal, já viram o vídeo pornô da Geyse? No zezito dá pra vêla sendo TOTALMENTE fudida!
Novembro 18, 2009 às 12:21 pm
Fechar bares e não ficar com uma menina por ter tropeçado e derrubado algo na moça. De onde vc me conhece pra ficar falando assim de mim?
Notificação extra-judicial já…
Novembro 27, 2009 às 3:29 am
Huahuahuahauhau.Adorei,nada como o perdão entre dois bêbados e nada como acordar tendo se perdoado!
Mas,ngm comeu ngm…kkkkkk.
Bjus,
Nadyégila
Novembro 30, 2009 às 9:14 pm
adorei o poema,legal.