Treze anos. Há treze anos decidi que vou seguir a marcha sem machucar ninguém.  São poucos ao meu lado, mas ao menos me olham com doçura e sem medo. Foi uma conquista. Depois dos anos de ira, carreguei cruzes que nem eram minhas. Foi para me tornar menos bicho. Para parecer que meu caráter era menos indecente, covarde e mesquinho. Para me desculpar. Teve um preço. Foi caro, não cabe aqui dizer quanto. E não estou cobrando nada de ninguém. Na verdade, eu pagaria tudo de novo com a maior satisfação. Mas foi caro verter violência em amor. E me orgulho disso. Muito. Um dia, há treze anos, chutei a cabeça de um rapaz que já estava no chão, indefeso. Ele cortou meu braço com uma garrafada. Vinte anos, briga de bar. Por causa de uma menina fútil. Eu penso sempre nele. Eu penso sempre se deixei as marcas da minha fúria para sempre em seu rosto: Se ele não tem o nariz torto, se enxerga direito, se tem todos os dentes na boca. Eu sonho sempre com ele. Nos sonhos, ele sempre aparece vestido com a mesma roupa do dia em que brigamos: calça marrom, camisa vermelha. É o mesmo sonho, sempre. Aperto a mão dele, mas meu nariz sangra. Já sonhei tantas vezes com isso, que sei que meu nariz vai sangrar ao apertar a mão dele. E continuo apertando, sonho após sonho. Treze anos. Treze anos que sonho com isso. Eu já fui tão bruto, mas há treze anos decidi que vou seguir a marcha sem machucar ninguém.

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