23/04/1994 Vinte faróis mais e mais vão piscando. Eu, como dois em cada dois mortais, sonho que possuo alguém que me possui. Abraço meu próprio corpo e balanço o tronco repetidas vezes. Posso perder tudo que tenho, menos o meu jeitão de viciado. Dedico a um amor de colégio uma parte grande do meu pensar. O sono – finalmente o sono – começa a cantar a nossa música predileta. Deito na calçada e nino tanto. Pouco depois, ardo: Zaralha o sol no Rio de Janeiro. Levanta mais um dia (suporto pelo bem da maldade todas as dores da cidade).

17/06/1997 Convites tolos ou sinceros, tímidos ou indiscretos, você recebeu o bastante para encher sua banheira de felicidade e filhos. Logo você, bípede lindo, bichinho fofinho e pouco inteligente. Eu, primitivo que sou, desenhei você numa gruta há milhões de anos, com seu sorriso vitrine, com a sua bundinha empinada. Eu prometo, linda. Um dia seremos felizes para sempre, até que o aborto nos separe. Eu prometo.

19/03/2002 Se um dia você encontrar meu corpo esborrachado no chão, ligue para a polícia, Ana. Diga que não me matei. Que sou incapaz. Que fui empurrado, com certeza. Insista. Chame a imprensa, chore na TV, monte um site denunciando meu assassinato. Porque eu teria ao menos deixado uma carta. Porque eu amava a vida. Porque eu tinha uma carreira maravilhosa.

Eu fui empurrado, insista.

Sou feliz o tanto que eu pude, é uma questão de mérito. Trata-se de luta e conquista. É uma guerra. Eu queria adotar um cacique para sentir a força de um  governo. Ou um pajé, para provar do medo de Deus. E guardar Deus no meu bolso. E usá-lo contra vocês na hora certa. Índios, vocês são todos índios.

Eu sou um monstro suicida, insista.

Chame a imprensa, chore na TV, monte um site denunciando meus crimes. Monstro. Eu passei por cima de vocês. Porque eu tenho Deus no bolso e não deixaria nem uma carta, bando de índios patéticos. Eu odiava a vida e tinha uma carreira maravilhosa. É uma guerra, vocês sabem.

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