Seis e quarenta da manhã, de Botafogo escuto os primeiros aviões pousarem no Santos Dumont. Os homens da grana chegam de São Paulo cheios de planos e contratos. Verdadeiros vencedores. Em seis horas, estarão almoçando em algum restaurante bacana do Leblon.

No Leblon, os vencedores só começam a comer quando os guardanapos de pano já repousam em seus colos. E só desfrutam de um copo depois de uma pequena prova, a garantia do maître. São as regras. Eles nunca comem tudo que é servido. É feio. E quando terminam uma refeição, cruzam os talheres no centro do prato, hastes pendendo para o lado direito, sinal definitivo de que os vencedores desejam a sobremesa, o brandy e o café, sempre nessa ordem.

Para os vencedores, raspar o prato é feio. É feio porque lembra a necessidade, a fome. Os ricos odeiam a fome e, por consequencia, qualquer um que experimente dela. Mas nem sempre a vida no Leblon é um conto de fadas. Estive lá ontem e senti cheiro de merda de gente numa calçada. Para os vencedores, é o pior tipo de cheiro. Cheiro de gente abandonada.

Alguém cagou de cócoras no Leblon ontem. Pelo cheiro e forma, cagou doidão de álcool e miséria. Seja quem for, já foi retirado pela nossa Guarda Municipal. Porque ninguém caga no chão do Leblon em vão. O Leblon é sagrado.

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