Ontem encontrei um desgraçado de um poeta viciado que gosto muito. A desgraça dele me dá grande conforto porque é muito maior do que a minha. Encontrar um desgraçado de grande porte ainda é um triunfo particular, um prêmio de consolação. Qualquer desgraçado médio comemoraria. E ele me lembra que nós disputamos uma guria linda há muitos anos, mas eu já não sabia o nome dela. Era uma morena de olhos verdes e cabelos curtinhos. Dormia como um anjo e trepava como o diabo. Ele apertou a minha mão e disse “Talita”. Nos perdoamos naquele momento. De verdade. Foi tão importante, tão forte, tão verdadeiro. Dois desgraçados que venceram as mágoas e encontraram o perdão. Mas fecharam o bar e já não havia mais tempo para solenidades. Eu implorei por uma última cerveja. Não nos deram.  Mas perdoados, nos arrastamos para outro bar. Porque perdoar e fechar bares faz parte da desgraça. Sentamos numa mesa dois quarteirões adiante. Umas mocinhas chegaram perto e pediram um cigarro. Perguntei se uma delas não poderia beijar na boca do desgraçado que estava comigo. Por humanidade. Por amor ao próximo. Ela ficou tão comovida que molhou os lábios com a língua, mas ele levantou da cadeira tropeçando e estragou tudo. Ela virou o rosto irritada. E irritar mulheres faz parte da desgraça. O jogo estava quase ganho, mas agora elas estavam rindo de nós. Eu disse que pagaria um táxi. E que ele conseguiria dormir logo. E que eu sabia que ele só bebia para conseguir dormir. E que era um ótimo plano B. E que o dinheiro não me faria falta. E que era a única coisa decente que poderíamos fazer naquele momento. Mas o desgraçado recusou a proposta na hora. Queria mais desgraça, mais noite, mais bar. Dava para sentir a sede no seu rosto. Fui para casa com a cabeça pra fora da janela do carro. Lutei contra a fechadura da porta. Venci. Dormi, dormi, dormi e acordei perdoado.

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