Hoje a morte me visitou duas vezes. Na primeira, roubou minha cadelinha e me obrigou a cavar a primeira cova da minha vida. Depois, me senti honrado por ter ajudado no enterro, porque era o cão que me ensinou a gostar de cães. A bichinha era melhor que muita gente, choraminguei para o veterinário. Ele me disse que a maioria dos cachorros é assim.

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Chegou o e-mail com o assunto “notícia triste” no início da tarde. Já recebi outros tantos com o mesmo título. Você não quer ler, mas precisa clicar e saber quem partiu. Lá vamos nós para o segundo enterro do dia. Agora sim, um enterro de gente grande. Um amigo do peito, caro porque raro. Até o céu chorava, mas enterro é sempre uma tempestade, chova ou faça sol. Enterro é muito estranho, vamos combinar. Você esbarra com gente querida que não encontrava há anos, mas elas estão todas na merda. Gente que você nunca imaginou chorando, pessoas que você só viu sorrindo. E você percebe que cada um chora de um jeito diferente. Porque dói de maneira diferente. Uns ficam travados, com a boca tremendo, segurando a onda. Outros, mais valentes, choram abertamente. E a dor no rosto de um causa dor no rosto do outro. Mesmo assim, os vivos costumam se reunir para enterrar seus mortos: É que quando um vira náufrago, o abraço do outro é tábua de salvação.

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