Morei em uma vila em Botafogo por toda infância e adolescência, tenho poucas lembranças do apartamento de Copacabana, meu primeiro lar. O carpete verde do apartamento de Copa é uma das raras memórias que tenho da época. Brinquei muito naquele chão, posso sentir seu cheiro ainda hoje.

Eu tinha seis ou sete anos quando entrei, acompanhado apenas por outra criança, em um elevador do antigo prédio da Santa Clara. Lembro da babá gritando no corredor, a porta fechando, a gente subindo. Não fizemos por travessura: alguém acionou o elevador em outro andar, a porta fechou com a gente dentro. Fiquei apavorado, nós não sabíamos operar o painel. Meu amigo tentou apertar um botão qualquer, estava tomado pelo pânico. Segurei seu braço e disse para não apertar botão algum, porque minha irmã mais velha dizia que todo elevador tinha um botão que fazia a cabine cair no poço. Não queria arriscar, claro. Achei que nunca mais veria meus pais, mas não queria morrer tão jovem. Enfim o elevador parou, as portas se abriram. Um homem gordo apareceu na nossa frente, foi na perna dele que nós dois choramos de alívio e alegria.

Naquela época não era feio dar armas de brinquedo para os filhos, por isso meu pai trouxe do Nordeste uma espingardinha do artesanato local. No primeiro dia em que brinquei com ela no playground, dois garotos mais velhos me tomaram a arma. Quando comecei a chorar, quebraram a espingarda em dois e jogaram os pedaços para o outro lado do muro do prédio. Eles já tinham jogado nossa bola de futebol várias vezes por cima do muro, mas a espingarda do Lampião era o brinquedo que eu mais gostava na época.

Quem sempre me acompanhava nas brincadeiras do playground era Bruno Pedroso, meu melhor amigo no colégio Souza Leão e um verdadeiro demônio mirim. Mestre na arte da bagunça, brigamos juntos muitas vezes no colégio contra os nossos inimigos: um protegia o outro. Visitei o apartamento dele inúmeras vezes, até que um dia quebramos ou sujamos algo na sala, não me lembro exatamente o que ocorreu. O pai dele mandou que Bruno entrasse em um quarto, mas ele chorou e implorou para não ir. Da sala ouvi gritos, choro e barulhos de cinta. Meus pais nunca me bateram, para mim pareceu um filme de terror. Nunca mais consegui visitar o apartamento dele, fato que acabou sepultando nossa amizade. (continua)

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